Reencontro

Der repente , desanda.
der repente, volta.

Der repente

Me perdi.

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Há momentos que se permitir é a única opção.
É quando você tenta ser coração mais uma vez.
E descobre que ele ainda pode bater.
Nem que seja por um momento. Porque mais que isso é expectativa. 

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Quando o medo  não atinge, é hora de olhar no espelho. Liberdade demais apodera, e às vezes tu só queres alguém pra lhe prender. Enxergar além do reflexo e reconhecer a alma perdida é tão duro quanto aceitar a realidade. Por isso, finjo que esqueço. Estar sem preocupação é tão mais prazeroso.  

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Sem Pensar

Denise Fraga e o talento de trazer riso ao drama escrito por uma autora de 17 anos.

Denise Fraga vive a personagem Vick em "Sem Pensar", que estreia em Paulínia no dia 17 de março.

“O tema é muito bom e fala da falta de comunicação familiar, desse cotidiano que nos cega tanto, dentro de uma casa que tem as pessoas com quem você mais convive e que você mais ama, fala do modo como as pessoas escolhem muitas vezes uma maneira pior de viver” – diz Denise Fraga.

Denise Fraga e Kiko Marques vivem um casal em crise na peça Sem Pensar

O drama é baseado no livro da jovem escritora Anya Reiss de apenas 19 anos (17 quando escreveu) no qual o diretor se apaixonou quando assistiu pela primeira vez em Londres. Tomado por essa idéia do cotidiano, da fragilidade de comunicação em plena era digital, ele então compra os direitos da peça e monta a versão nacional pra ela.

O cenário se passa num final de semana na casa de uma família onde o casal vive a crise pós traição do marido. A mãe/esposa traída, Vicky (Denise Fraga) parece viver em constante Tpm. O pai, (Kiko Marques) decide alugar um quarto e o inquilino Daniel (Kauê Telloli) acaba se interessando pela filha do casal Delilah (Júlia Novaes), de apenas 13 anos. A pré-adolescente vive a fase de transição comum na idade, que se evidencia pela falta de atenção dos pais, o que a faz se sentir muito só. Daniel faz o papel de irmão mais velho e supri essa carência que ela sente. Ao mesmo tempo se culpa por sentir um afeto maior do que gostaria, ainda mais pela idade da moça.

“A peça é um fio de navalha, porque essa menina conseguiu com 17 anos escrever sobre um assunto absolutamente cáustico, pesado, dessa relação e desse casamento desgastado, com uma menina vivendo a descoberta da sexualidade. Ela consegue mostrar como somos ridículos em nossas imperfeições humanas”. diz Denise Fragra, em entrevista.

A trama explora a questão das relações interpessoais em um mundo onde se tem cada vez mais ferramentas que intercedem o contato e ao mesmo tempo afasta os laços familiares com uma relação indireta. Com o avanço de tantas ferramentas voltadas para comunicação, as relações se concretizam com a liquidez cada vez mais evidente.

Cenário da peça Sem Pensar

Para o diretor, Luiz Villaça, “temos as ferramentas mas não sabemos como usar todos os avanços da comunicação, como redes sociais, Iphones… ainda assim falta comunicação (…) Num momento em que todo mundo acha mais fácil falar pelo facebook, é legal poder discutir como é poder se comunicar cara a cara”

A peça é uma produção do Teatro GT
Em exibição nos dias 17 e 18 de março no Teatro Municipal de Paulínia
Telefone: (19) 3933.2140 / (19) 3874.2680
Informações pelo site: www.teatrogt.com.br

Confira a entrevista com a protagonista Denise Fraga:

- Sobre a Denise

Z Magazine: Um sonho?
Denise Fraga: Ter uma companhia de Teatro.

Z: Um defeito e uma qualidade sua?
DF: Sou bem distraída, mas também presto muita atenção em detalhes.

Z: Prefere atuar em cinema, TV ou teatro?
DF: Todos têm seus encantos.  No cinema, pelo exercício conjunto de concentração de uma equipe imensa para a construção de algo muito delicado, atuar nos mínimos gestos que o cinema exige é como bordar num tecido fino onde tudo se vê.  Cinema lê o pensamento do ator, portanto é um exercício de estar inteiro todo o tempo.  É fascinante.  Na TV, pelo próprio imediatismo e o jogo de cintura que a TV exige.  É um exercício de disponibilidade para contracenar.  Ouvir, pensar e reagir criando ao mesmo tempo.  O palco é o mestre do ator.  É onde fazemos a musculação da alma.  O teatro é um trapézio sem rede a cada noite.  E é uma cerimônia, uma experiência coletiva transformadora para atores e público.  Um lugar onde nos deixamos permear por uma ideia.  Um pacto entre ator e espectador numa espécie de missa.  E é o lugar onde o ator vai além, experimentando detalhes durante toda a temporada, aprendendo, aprendendo, aprendendo…  Mas em todos o que mais conta mesmo é o quanto você quer contar aquela história ou viver aquele personagem.

Z: Qual trabalho que gostou mais de fazer até hoje?
DF: Foram muitos, graças a Deus.  Retrato Falado, A Alma Boa de Setsuan…  Adoro fazer a Vicky de Sem Pensar.  Fico feliz quando vai começar a peça porque sei que vai começar a diversão.  Deles e minha.

Z: Quem é Denise Fraga?
DF: Essa é melhor você perguntar pras pessoas que convivem comigo.  A gente tem sempre uma vaga ideia de si.

- Sobre a peça

“Acho que o sucesso de uma peça está muito ligado à vontade que você tem de contar uma história que te tocou”

Z: A peça explora muito mais que o universo familiar cotidiano. Pra você, qual a ideia central de todo enredo?
DF: O mais bacana do texto é justamente falar de algo que todo mundo reconhece como cotidiano, mas olha sem enxergar e ouve sem escutar.  Como somos cegos em nosso dia a dia, em nossas relações familiares.  Anya Reiss escreveu um texto brilhante, retrata um drama familiar com métrica cômica nos fazendo rir e refletir sobre o que somos.  Nos salva pelo humor, nos faz ver como somos desastrados no verbo amar.

Z: Com o avanço de tantas ferramentas voltadas para comunicação, as relações pessoais estão cada vez mais líquidas. Você acha que a criação dessas próprias ferramentas, como as redes sociais e até mesmo o telefone, tem contribuído para esse contato indireto?
DF: Acho que tudo ficou mesmo menos sólido.  O conforto da relação virtual é justamente poder escapar a qualquer momento e o preço disso são vínculos frágeis.  Acho que o mundo deu uma pulverizada de maneira geral com o evento REDE.  Podemos ter acesso a muitas coisas.  E temos.  Mas às vezes sinto que temos muitos amigos, muita informação, muitas possibilidades e sempre pouco tempo para nos aprofundar.  Exigimos cada vez mais rapidez das coisas e a intimidade e o conhecimento real do que quer que seja requer tempo e reincidência.

Z: A peça faz uso do cenário de uma residência para mostrar o dia a dia de uma família e de um inquilino. Mesmo assim, é possível notar que cada vez mais a falta de comunicação na sociedade se evidencia. Até onde você acha que esse tipo de laço – ou falta de – pode levar a relação social?
DF: Um dos atrativos da peça é realmente o cenário do Valdy Lopes Jr. e a encenação do Luiz Villaça.  Luiz criou uma mise-en-scéne linda que evidencia a cegueira desta família ao nos deixar ver todos os cômodos desta casa ao mesmo tempo.  A filha vivenciando seu drama no quarto literalmente em cima da cabeça dos pais que discutem picuinhas na sala enquanto o público morre de rir na platéia.  É um drama familiar exposto ao nosso riso de reconhecimento pelo texto brilhante desta jovem autora e um ótimo elenco regido pela sensibilidade de um diretor como Luiz Villaça.

Z: O que te impulsionou na construção da sua personagem e qual a importância dela no espetáculo?
DF: A Vicky é uma mulher conhecida de todas as mulheres.  Reúne as mães, as esposas, as amantes.  Parece estar numa tpm constante, adora ter um motivo pra sofrer, é inteligente e não consegue controlar as flechas que saem de sua boca. De tanto mau humor, se torna engraçada.  Perdoamos seus exageros e sua língua porque é movida pelo amor.  Mas é completamente desastrada em sua forma de amar.  Não me inspirei em ninguém propriamente, mas quem tem vivência familiar, conhece a Vicky.

Z: O que a peça significa pra você e como tem sido essa experiência?
DF: Vimos a peça em Londres e nos encantamos.  A Time Out da semana que estávamos lá dizia: “Se você tem apenas um dia em Londres, não deixe de ver “Spur of the Moment” ( o título original ) .   O Luiz queria muito dirigir Teatro.  Acho que o sucesso de uma peça está muito ligado à vontade que você tem de contar uma história que te tocou.  Como se você tivesse que fazer os outros saberem daquilo correndo.  Conseguimos os direitos.  Acho que a reação da plateia daqui foi muito parecida.  Riem e se emocionam. Este fino fio entre o humor e o drama é meu terreno favorito.  Quando consigo divertir alguém ao mesmo tempo fazendo esta pessoa sair do teatro com uma pulga atrás da orelha, num estado de reflexão, me sinto plena como artista.

Z: Porque o público deve assistir a peça?
DF: Para rir um pouco de si mesmo.

Z: Como tem sido o retorno do público?
DF: Fizemos uma carreira linda no Tuca em São Paulo, prorrogando a temporada por duas vezes.  As pessoas gostam muito da peça, se identificam muito.  Aos domingos era bonito de ver, porque vinham famílias inteiras, pais, avós, filhos adolescentes com os namorados e as namoradas.  Todo mundo se vê em alguma parte da história, porque a Anya Reis escreveu um texto muito esperto e inteligente, mas com ingredientes muito cotidianos e reconhecíveis como a briga pelo controle remoto no sofá, cenas de ciúme ou uma briga por chá ou café na cozinha.

Confira abaixo o vídeo oficial de divulgação:

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Caio Fernando Abreu

Caio, o fotógrafo da fragmentação contemporânea.

Alguns limitam-se a classificá-lo como jornalista, dramaturgo e escritor brasileiro. Mas é pouco para descrever Caio Fernando Abreu. Outros mais entendidos preferem dizer que ele atua como a versão masculina de Clarice Lispector, por falar sobre sentimentos e pessoalidades das mais variadas fases da vida. Mas, sinceramente, não há como descrevê-lo assim.  Caio consegue “empalavrar ” em seus textos mais variados o que ainda não nos demos conta de sentir. O que está vedado, “inconsientizado”, implorando pra sair. É típico encontrar quem lê Caio pela primeira vez se deslumbrando e soltando frases como : “nossa, ele tem razão”.  Tomado pelas mais variadas figuras de linguagens possíveis – e não denominadas também –transmite em suas palavras muito mais que frases interligadas, coordenadas ou subordinadas. É audacioso, sincero e sem escrúpulos, munido de gírias e tudo que pode ser considerado recurso linguístico usável ou não.

Tudo é uma brincadeira bonita que dão aos contos um ar poético e encantador. A estrutura de “A Beira do Mar Aberto” possui um começo e fim totalmente abertos e é composto por quatro páginas de um parágrafo único sem nenhum ponto final, é literalmente “de tirar o fôlego”. Não espere desse autor nada convencional, ele não se priva a escrever textos lineares e a cada conto trás um estilo novo, seja na estrutura, no tema ou no próprio sentido.

Provavelmente ao escrever seu primeiro conto,aos seis anos de idade, não imaginava a contribuição que um dia traria para a literatura brasileira. Nascido em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, acabou sendo influenciado por uma época transitória de muita industrialização e novidades sociais, desde doenças até novos meios de comunicação entre muitas outras estranhezas que influenciam o intelecto e a inspiração de autores. “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso”, de 1988, foi um dos últimos livros publicados em vida, e é uma amostra do cunho literário desse autor.

Pode-se dizer, enfim, que a prosa se confunde e se mistura com poesia. Caio Fernando consegue poetizar até coisas esdrúxulas e “impoetizáveis”. Narrações para ser lidas e relidas, interpretadas e reinterpretadas. Nada é o mesmo em uma segunda leitura, pois tudo que se pode fazer com palavras, ele faz.

Obs pessoal: Caio, “na minha memória – tão congestionada – e no meu coração – tão cheio de marcas e poços – você ocupa um dos lugares mais bonitos”. (por ele mesmo).

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Me diga algo além do que preciso saber. E me surpreenda com o que eu espero e finjo não acreditar mais. Porque quando eu digo não, estou querendo dizer sim. Tentando me enganar enquanto olho você. Tentando impedir de criar um relacionamento individual onde eu invento todos os personagens sem ter ao menos platéia para aplaudir minha fragilidade teatral. Vou embora querendo alguém que me peça pra ficar. Quando digo adeus logo no início, no fundo eu quero dizer “me impede de ir”. Porque chamar de amor soa tão banal hoje em dia que preciso criar obstáculos pra sentir-me amada. Eu imagino diálogos antes de encará-los e não sei lhe dar com suas lacunas ocasionais. Às vezes penso tanto antes de falar, que me calo. E vivo para me arrepender do que não aconteceu. E por esses motivos, acabo de braços dados com a solidão. Sentindo-me morna de tanto não me permitir, de tanto calcular meus passos, me esconder em falsa timidez, evitar sentimentos, relacionamentos e evitar gente só por ser gente e pela possibilidade de dar errado.

Meu coração está vazio com tanta razão. Por isso, às vezes, eu queria encontrar a forma de viver sem me pesar, ser e não doer. Mas eu paro e defino outro pensamento. Eu quase existo sabia? E me encontro na normalidade, que acalma a solidão. Afinal, quem é que existe por inteiro?

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Les temps nouveaux

Fui cobrada pela editora a escrever dedicatória. Aquela que estava pronta e que jaz amassada e rasurada a beira do lixo. Mentira! O lixo a cuspiu. Agora ela faz parte de um capítulo reescrito, estruturado de acordo com as mudanças que a gente tem. Sendo assim, de certa forma, joguei fora. A quem se dedica um livro que não mais convém? Horas de escritas diárias, se prontificando a dizer a importância necessária do ser que a gente tem.  Esse mesmo alguém nem ao menos lerá ou tem consciência de tudo que foi. E que Foi! Pois hoje não o é. Alguém que poderia ter sido o único a ter em mãos o que muitos – ok,poucos – terão. Memórias de um passado próximo, originalmente centrado em fatos apresentados para o futuro, com o único objetivo de aproximação. Narração de cenas reais, que aconteceram aqui dentro. A quem se dedica uma parte de você que não te pertence mais? Que foi interrompida sabe-se lá por qual motivo, só o sabe por quem. O que se dedica quando o hoje não faz o menor sentido, mas ontem era sentido único? Quando o hoje – diz ele – foi dependência. Dependência que ontem, disse ele, era amor. A quem dedicar? Um pseudo-livro com personagens criados pela mente e interpretados pelo coração?

Hoje nos qualificamos de acordo com a razão. E deixamos os sentimentos de lado  para responder a ela. Pois do que vale ser racional, enquanto se é do amor que estou falando? Amor puro, livre de preceitos. Ainda somos racionais quando amamos, mas deixamos de amar quando somos racionais.  Por esses e outros motivos que Laura se rendeu a superfície da razão, ainda que contra sua vontade. Por esses e outros motivos que ela prefere a ausência da dedicatória. Tal qual a ausência de quem pertence seus textos. Tal qual a curiosidade ausente de alguém ausente que soube – ontem – que era o único assunto do qual seu livro-diário falaria hoje. Mas agora é tarde e tudo não foi mais que um página em vida do que se tornou um livro fictício. Ele virou apenas um personagem. Só, sem qualidade que defina a que grau pertence.

Quem dera poder fugir para um lugar onde a saudade não a encontrasse, a dor não a alcançasse e as lembranças não fizessem diferença pra ela. Por isso preferiu não reler, apenas terminar, fingindo estar tudo bem. Não que tenha sido em vão. Jamais o seria. Tudo faz parte de um eterno aprendizado ao qual passamos diariamente. Às vezes com mais fervor, às vezes nem tanto. O que hoje faz parte de uma lembrança ruim e causa sensação de arrependimento, amanhã – com certeza – será parte decisiva de uma escolha brutal. Algo que nos fecha será parte da composição da palavra que nos abre. Por isso, julgo – e ela também- que não há outro a qual dedicar o livro que não o tempo. Não o tempo em si, mas o estado regenerativo que ele proporciona a qualquer pessoa, com mais ou menos intensidade. Independente de quanto tempo, que seja o necessário, mas ainda assim, o tempo. Foi ele o grande responsável por tornar possível a continuidade de seus textos dedicados – a principio – a um amor eterno – e depois, a um desconhecido.

Suas páginas sempre abertas. Como um livro sem fim.

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